Como BBB usa storytelling, cria vilões e alimenta o ódio na internet

Você, assim como eu, pode não acompanhar muito o BBB e nem ser um heavy user de redes sociais, mas os dois estão nos afetando de diversas formas diariamente.

Big Brother Brasil se tornou um “evento” como Copa do Mundo, Olimpíadas, Final da Libertadores. Você pode até não se importar, mas está todo mundo falando sobre. Então, é como o Neo (do filme Matrix): você até tenta desviar dos tiros, mas eles estão ali, passando a um tris do seu nariz.

Mesmo que você não veja o BBB, é importante falarmos sobre o tema. O programa está criando monstros dentro da casa e fora dela, nas redes sociais.

Por isso, mesmo sem gostar muito do programa, resolvi acompanhar alguns dias, principalmente notícias e as reações nas redes sociais para fazer um breve estudo.

A seguir, vou abordar alguns pontos pra que a gente consiga entender como o programa cria narrativas e usa muito storytelling para criar mocinhos e bandidos e também como isso extrapola para as redes sociais, exacerbando o pior do ser humano.

 

Criando a narrativa do bem contra o mal

Diversas obras exploram a narrativa do bem contra o mal. 

Ultimamente, até na política vemos essa narrativa sendo construída. Qualquer coisa vira motivo pra se criar uma discussão política entre bolsominions e petralhas. 

Tudo se torna o bem contra o mal, nós contra eles.

No BBB, isso não poderia ser diferente. Sem um vilão para pôr em cheque a boa convivência na casa, sem um conflito, aquilo vira apenas uma colônia de férias. Quem vai querer ver um monte de marmanjos em uma mansão sem umas farpas rolando pra lá e pra cá?

Não à toa, o paredão que culminou na eliminação de Karol Conká teve uma das maiores audiências dentre todas as edições!

Sabendo disso, o próprio programa cria situações para garantir a desordem e, claro, criar embates entre “o bem” e “o mal”.

 

Como usar o storytelling para criar um monstro?

Nego Di, elimnado antes de karol Conka e o segundo maior recorde de rejeição da história, está dando uma série de entrevistas acusando o programa de criar uma narrativa inexistente.

Quando saiu aqui, uma das maiores críticas do público é que ele era um humorista que não fazia piadas. Estranhamente, ele alega que em alguns momentos na casa as pessoas pediram para que ele parasse de fazer tantas piadas. 

A edição mostrou um cara sério, que fazia tramoias e deu as contas para o “melhor amigo”, Lucas Penteado. O Pay Per View, que vem com a premissa de mostrar “tudo que acontece na casa” simplesmente ignorava certos momentos e pessoas.

Não é incomum ver a câmera saindo do foco em certas pessoas, ficando mudo em determinados momentos e dando atenção apenas em coisas específicas, a fim de manter a narrativa. 

Quando você conhece Darth Vader pela primeira vez no episódio 4, o primeiro filme da franquia, de 1977, você vê um vilão badass! Sua respiração é tenebrosa e seu primeiro ato em cena é matar um subordinado com um sufocamento.

O básico da criação de histórias é: ressaltar os defeitos e a maldade do vilão e enaltecer as qualidades, senso de moral e ética do herói.

No fim, para aumentar a dramaticidade e a conexão com o público, podemos permitir a redenção ao vilão.

Lucas Penteado foi um dos pivôs de todas as brigas na casa. Em todas as festas passava dos limites, incomodava outros participantes e teve atitudes tão execráveis quanto tiveram Nego Di e Karol Conká, por exemplo.

Porém, o Storytelling o transformou em um vilão redimido, que pediu perdão pelo erro, encontrou a luz no fim do túnel e saiu como o mártir do jogo. Tal qual o Darth Vader, que no final, deu sua vida para salvar seu filho.

 

BBB faz emergir o pior do ser humano nas redes sociais

Não quero botar a conta dos males da sociedade no Big Brother, porém, ele é nosso objeto de estudo aqui e, portanto, vamos entender como ele se retroalimenta com o ódio gerado nas redes sociais.

Retroalimentar: esta é a palavra que melhor define. O BBB cria vilões, as redes sociais comentam, interagem e o programa usa as opiniões (e memes) para se alimentar novamente. 

Lumena virou sinônimo de canceladora nas redes sociais? Vamos dar mais ênfase a comportamentos assim, gerando mais comentários e memes.

Tudo pela audiência. Até aí, tudo bem. É um programa de TV. A audiência é seu principal objetivo. Iludido é quem pensa o contrário.

A parte ruim é ver que muitas pessoas não sabem separar a vida real, da vida no programa. Ainda que o programa tenha como premissa “mostrar a realidade dos brothers”, precisamos entender que aquilo é um recorte da vida real, com uma certa ajuda das edições e com criação de situações de estresse extremo para levar os participantes ao limite.

Linchamento virtual na internet

Aqui fora vemos pessoas pela internet fazendo um verdadeiro linchamento virtual. 

Ao sair da casa, Nego Di e Karol Conká relataram ter recebido diversas ameaças, inclusive aos seus familiares. 

Condenar algumas atitudes na casa, ok!

Fazer brincadeiras e memes, tudo bem!

Agora, ameaçar família, jurar de morte, proferir todos os tipos de xingamentos… pra quê isso?

 

Reflexos do nosso total descontrole emocional

As redes sociais são o melhor exemplo do nosso total descontrole emocional. 

Vou incluir aqui um trecho de um texto da Psicóloga Raquel Baldo, que exprime melhor isso:

Os ataques de ódio, de desrespeito e de preconceitos mostram claramente o descontrole emocional e a capacidade da pessoa de discernir sobre respeito, empatia, limites de espaço. A pessoa acredita que possui uma verdade absoluta e um lugar especial no mundo de salvador, herói, um lugar majestoso que deve ser acatado pelos outros e por isso se permite a sair falando sem qualquer preocupação com o lugar do outro, com o jeito e com a consequência disso, apenas quer atender seu impulso imediato, sentir prazer e se satisfazer, não há olhar e consideração com o meio e nem mesmo ideia ou preocupação em se responsabilizar e arcar com o que faz ou deixa de fazer.

Estamos todos meio fodidos, essa é a real! 

Por isso, precisamos externar nosso ódio diário em outras coisas. Em certos momentos, escolhemos o BBB para destilar nosso veneno. 

E o fazemos na praça pública, no coliseu da internet: as redes sociais. É lá que acontecem os linchamentos, os enforcamentos, as caças às bruxas.

Cidadãos de bem, exemplares, sem defeitos, queimam até a morte aqueles que não são tão perfeitos assim.

 

Como parar de destilar o ódio na internet e ser uma pessoa melhor?

Queria que houvesse uma resposta simples. Assim, muitos problemas da humanidade estariam resolvidos.

Só posso dizer que, se você quer parar de ficar destilando ódio na internet, o primeiro passo você já deu: querer parar.

Agora é questão de focar no autoconhecimento, tratar seus traumas, meditar e, principalmente, exercitar a arte do deboismo: Pare de se importar, de comentar tudo, de só falar grosserias. 

Criadores da página do "Deboísmo" pregam tolerância nas redes sociais |  Jovem Pan

Antes de xingar alguém, comentar algo ácido em uma rede social, pense: O que eu ganho com isso vale a pena o estresse e toda energia negativa que estou emanando?

A resposta é com você!

 

 

 

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Guilherme Santos: Formado em Publicidade e Propaganda e pós-graduando em Mídias Sociais e Marketing Digital, atua na área de comunicação desde 2007.

É especialista em criação de conteúdo e marketing digital. Apaixonado pela escrita, trabalha como redator freelancer para diversos clientes em todo o Brasil. Faz parte do time de redatores da Contentools, escreve uma coluna semanal no Jornal de Laguna, além de públicar artigos em seu blog, LinkedIn e em portais parceiros que divulgam seus conteúdos.

 

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